
A Psicologia, como disciplina científica, foi por muito tempo considerada uma “psicologia da consciência”, no sentido de que apenas aspectos voluntários do comportamento ou da mente e consciência eram estudados. Posteriormente, algumas teorias tentaram formular conceitos e fenômenos de outra ordem, a qual a consciência não tinha acesso. Esses fenômenos eram de natureza inconsciente ou produto do inconsciente, entendidos enquanto uma parte da mente ou funcionamento diferenciado dela. Embora os termos “mente” e “inconsciente” sejam usados por muitas abordagens psicológicas, em cada uma, eles terão definições completamente diferentes e serão usados para explicar fenômenos que muitas vezes, não são antagônicos, mas estão submetidos à níveis de análise distintos.
Recentemente o termo “mente” recebeu uma nova roupagem, não mais se tratando de um constructo psicodinâmico, mas de um objeto palpável e passível de investigação empírica direta. Seu correspondente, dentro dessa nova Psicologia, é mecanismo psicológico, e não se refere a um funcionamento particular de um indivíduo, mas de todos os indivíduos da nossa espécie, os Homo s. sapiens. Nesse sentido, o conceito de mente está atrelado aos padrões gerais de comportamento da espécie humana.
Essa nova psicologia é Psicologia Evolucionista (PE), cujo principal objetivo é a investigação desses mecanismos psicológicos ou da “mente humana” por meio de uma variedade de métodos e técnicas correlacionais, observacionais, comparativas com outras espécies e experimentais. A PE deriva de ramificações dos objetivos da Etologia, fundada no século XIX, para a qual o comportamento poderia ser estudado, a partir de uma perspectiva biológica, se respondesse a quatro perguntas, os quatro porquês de Tinbergen, um dos fundadores da área. O primeiro “porque” deveria reconstruir a história filogenética do comportamento em questão. O segundo “porque” se refere à função do comportamento para a sobrevivência da espécie. Em terceiro lugar, deve-se responder como o comportamento se desenvolve na ontogênese do individuo; e em último, quais as causas imediatas do comportamento.
Embora essa proposta da Etologia pareça completa, ela foi muito ousada e ambiciosa, e muitos dos estudos não deram conta de responder a todas essas perguntas ao mesmo tempo. Como conseqüência disso, houve desdobramentos da Etologia de modo que cada porque passou a ser estudado por cada nova disciplina que a sucedeu, como por exemplo, a Sociobiologia (enforcando o primeiro porque), a Ecologia Comportamental (enfocando o quarto porque) e a Psicologia Evolucionista (enfocando o segundo porque).
Ao enfocar no segundo porque, os teóricos da PE acreditam que a mente humana (ou os mecanismos psicológicos) foram selecionados no passado devido ao seu caráter adaptativo na sobrevivência da espécie. Esse período passado, no qual os ancestrais humanos evoluíram nas savanas africanas, é chamado de Ambiente de Adaptação Evolutiva (ou AAE, simplesmente). Nessa época, as condições ambientais (clima, geografia e predação) e sociais (maior dependência da prole, formação de casais, evolução da linguagem e estabelecimento de redes sociais amplas) moldaram na mente humana “soluções adaptativas” aos problemas encontrados neste período. Como resultado, ainda hoje estas soluções estão supostamente presentes no comportamento humano.
As soluções encontradas no AAE são expressas em padrões comportamentais amplos, como o apego, a formação de amizades, a desconfiança/aversão a membros externos ao nosso grupo etc. No entanto, não são os comportamentos em si que foram selecionados, uma vez que eles são o produto do gene pool da espécie em interação com o ambiente no qual ela vive atualmente. Para os psicólogos evolucionistas, o que evoluiu foram os mecanismos psicológicos, sob a forma de conexões neuronais no cérebro, cuja função é o processamento das informações ambientais especificas de cada problema encontrado pelos ancestrais humanos. Isso implica dizer que os mecanismos envolvidos na criação dos filhos não processam as informações sobre as melhores pessoas com as quais namorar, e vice versa.
Esse grau de especificidade dos comportamentos humanos é visto como conseqüência da especialização dos mecanismos, que evoluíram porque resolveram problemas muito específicos. Essa característica da mente humana chama-se modularidade, por sugerir que um mecanismo psicológico não pode ser usado para resolver outros tipos de problemas para os quais não evoluiu. Exemplo disso é a preferência humana por faces simétricas na procura por parceiros amorosos, mas que por outro lado, a simetria da face não parece ser levada em consideração quando se procura um amigo. Outros exemplos envolvem a capacidade de detecção de trapaceiros, ausência de reciprocidade, quando se busca por cooperação. Apesar das pessoas negarem veementemente que não esperem receber em troca aquilo que fizeram para outrem, ao perceber que o outro não corresponde à cooperação ou reciprocidade na relação, elas interrompem as ajudas freqüentemente destinadas ao sujeito egoísta.
Outro mecanismo psicológico muito estudado é a empatia. Já foi demonstrado na espécie humana e em outras espécies que os indivíduos são capazes de experimentar interesse nos sentimentos e desejos de outras pessoas. A empatia ocorre desde muito cedo na espécie humana, onde por volta dos primeiros anos de vida, as crianças são capazes de demonstrar “compaixão” ao ver outra criança ou adulto chorando. Comportamentos como esses só podem acontecer mediante a capacidade de se interpretar os sentimentos e idéias de outras pessoas através das suas expressões faciais e corporais (Teoria da Mente). É como se a mente humana fosse capaz de fazer uma leitura, ainda que estatística, dos estados subjetivos dos outros.
A empatia possui uma base neurológica bem definida, sendo creditada a um conjunto especial de neurônios situados na área 44 do cérebro humano ou área F5 de outros primatas. Os neurônios espelho como são conhecidos são responsáveis pelo processamento de informações sobre o comportamento dos outros, no sentido de ativar no cérebro do observador, as mesmas áreas envolvidas no comportamento motor do sujeito observado, a base neurológica para a imitação social. As pesquisas experimentais que descobriram os neurônios espelhos foram feitas na Universidade de Parma, Itália, sob a supervisão do neurocientista Giacomo Rizzolatti. Atualmente, as pesquisas do grupo de Rizzolatti demonstram que há vários tipos de neurônios espelhos, formando em conjunto o sistema de neurônios espelho, envolvidos também com a produção da fala humana, processada na mesma área cerebral (área 44 ou área de Broca) e possível evolução da linguagem dos seres humanos.
Muito embora, os mecanismos psicológicos tenham sido selecionados porque capacitaram os ancestrais humanos resolver problemas do AAE, isso não implica na atual adaptação dos mecanismos. No AAE, as condições do ambiente seco e pobre impulsionaram os hominídeos à procura por alimentos ricos em calorias e carboidratos, muito escassos naquela época. Todavia, no mundo atual dos supermercados e lanchonetes, onde a disponibilidade de alimentos e a facilidade de encontrá-los, sob as formas mais ricas, tornam essa preferência que foi adaptativa no passado, num grande problema de saúde pública, causando obesidade, diabetes e doenças coronárias.
Apesar das contribuições trazidas pela PE e pela noção de mecanismo psicológico ao comportamento humano não há total concordância entre os teóricos da evolução sobre as extensões da validade da importância do AAE e da modularidade da mente humana na compreensão do comportamento humano.
As críticas mais duras são feitas pelos ecólogos comportamentais, que enfocam menos a adaptação passada, e mais a capacidade de lidar com os problemas no ambiente atual das espécies, a adaptabilidade. Segundo eles a possibilidade de se entender o comportamento humano usando a perspectiva da PE é limitada devido a impossibilidade de se observar a função dos mecanismos psicológicos no ambiente ancestral. Os psicólogos evolucionistas respondem às críticas, afirmando que desde o surgimento da nossa espécie até os dias de hoje, não houve tempo para que nós mudássemos radicalmente dos primeiros humanos. Logo, os estudos de populações atuais e dos padrões comportamentais encontrados hoje fortalecem a idéia de que nossas “mentes modernas habitam um crânio da idade da pedra”, afirmação de Leda Cosmides sobre a possibilidade de se estudar os mecanismos psicológicos, olhando para o passado.
Por outro lado, muitas críticas dirigidas à PE são baseadas em desconhecimento da teoria e de seus métodos. Alguns têm acusado os psicólogos evolucionistas de tentar reconstruir o ambiente de adaptação evolutiva, AAE, através do “uso de questionários e experimentos super simplificados em laboratório”. O conceito de AAE nada mais descreve que as condições (pressões seletivas) que foram enfrentadas pelos ancestrais caçadores-coletores, mas de forma alguma esse ambiente pode ser reconstruído, ou o é pelos psicólogos evolucionistas. Uma das características que distingue a PE de outras disciplinas é a interdisciplinaridade, dialogando com outras ciências, como a paleoclimatologia, neurociências, paleoantropologia, arqueologia etc. Ciências como a paleoantropologia, arqueologia e a paleoclimatologia ao investigar o registro fóssil buscam reconstruir esse passado através dos vestígios deixados pelos hominídeos (como instrumentos de pedra lascada, ossadas e inclusive o gelo polar e restos de animais mortos no fundo do mar). Utilizando-se, então, da reconstrução do passado realizada por outras ciências, os psicólogos evolucionistas tomam essa reconstrução como referência para avaliar suas hipóteses a respeito dos mecanismos psicológicos investigados por eles.
Uma tentativa de promover a discussão entre os psicólogos evolucionistas e outros teóricos da evolução foi feita no livro “The evolution of mind: fundamental questions and controversies” organizada por Steven Gangestad e Jeffrey Simpson. O livro lançado em 2007 traz discussões teóricas sobre evolução, as metodologias adotadas pelos psicólogos evolucionistas, e discussões sobre a extensão dos conceitos da PE, como AAE e de mecanismos psicológicos.
No ano de 2009, um conjunto de pesquisadores de universidades brasileiras lançou o primeiro manual em português sobre a PE. Nele, além de haver discussões atualizadas sobre as tendências de pesquisas em PE, traz reflexões sobre o AAE e a modularidade. Especialmente o capitulo desenvolvido pelo etólogo Cesar Ades, discute com base em estudos empíricos a possibilidade da coexistência de mecanismos altamente especializados e mecanismos gerais de comportamento (modularidade maciça versus modularidade flexível). Estes últimos possibilitariam um aprendizado independente de problemas adaptativos ancestrais, como aprender a usar o computador, andar de bicicleta, tocar um instrumento musical etc. Sobre esse respeito, o psicólogo Jeremy Genovese discutiu, em artigo recentemente publicado, a possibilidade do mecanismo de reforçamento atuar como um mecanismo psicológico geral.
Vale ressaltar que a PE é uma disciplina relativamente recente, sendo proposta formalmente em 1992, com a publicação do livro “The adapted mind” de Barkow, Cosmides e Tooby, onde foram reunidos princípios gerais derivados de linhas de pesquisa em comportamento humano e não humano. Em virtude disso, as hipóteses formuladas especialmente pelo grupo liderado por Leda Cosmides e John Tooby estão sendo testadas para posteriormente confirmação. Em 2005 o livro “The handbook of evolutionary psychology”, organizado por David Buss reuniu muitos pesquisadores para aprofundarem os assuntos tratados em PE.
Mais informações podem ser obtidas em:
http://www.cb.ufrn.br/psicoevol/
http://www.geape-ufpa.org/
Indicações de leitura:
- Jerome Barkow, Leda Leda Cosmides e John Tooby. The adapted mind: Evolutionary psychology and the generation of culture. Oxford University Press, 1992.
- Emma Otta e Maria Emilia Yamamoto. Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista., Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2009.
- Steven Gangestad e Jeffrey Simpson. The evolution of mind: Fundamental questions and controversies. The Guilford Press; 2007
- David Buss. The handbook of evolutionary psychology. John Wiley & Sons, Inc. New Jersey. 2007.
- Jeremy Genovese. Evolutionary Psychology and Behavior Analysis: Toward Convergence – The behavior analyst Today. 2009.